Dragonbane, Financiamentos Coletivos e Decepção
A Tria Editora começa hoje o financiamento coletivo (FC) da tradução de Dragonbane (DB) para português e esse é um marco bem importante para a comunidade RPGística brasileira. A importância básica é que com a publicação de DB teremos, finalmente, a trilogia dos sucessores espirituais de Drakar och Demoner, carros-chefe da Free League, traduzidos para português (junto com Symbaroum, publicado no Brasil primeiramente pela Pensamento Coletivo e posteriormente pela Tria, e Forbidden Lands, publicado pela finada Sagen Editora). Outro valor desse sistema é que ele é incrível e possui várias características que eu, como jogador, prezo muito: é 1) rápido, 2) letal sem ser injusto e 3) transparente para o jogador.
Dragonbane no Brasil
Para os que não conhecem, DB é um RPG de fantasia medieval com um sistema fundamentado no chamado "d20 roll-under", ou seja, os testes são realizados rolando um d20 e o sucesso é obtido rolando abaixo de um valor — nesse caso, o atributo. De forma resumida, portanto, o jogo se comporta como um BRP, só que ao invés de rolarmos d100, rolamos o d20, em uma fusão mecânica de Call of Cthulhu e Dungeons & Dragons que promete nada, mas entrega tudo. O cenário é interessante e similar aos seus jogos irmãos, sendo uma fantasia sombria, só que com um tom menos sisudo em DB. E sim, em DB nós podemos jogar com pessoas-pato, chamados marrecos, na (genuinamente excelente) tradução brasileira.
Um marreco guerreiro. Se isso não te motivar a jogar DB, eu não sei o que mais o fará.
Esse post, infelizmente, não se resumirá a um elogio ao sistema ou ao trabalho da Tria Editora, que é consistentemente bom. Na gringa, DB é conhecido mesmo entre aqueles que não jogam o sistema pela core box, que vou chamar de caixa básica daqui em diante. Esse é um produto desenvolvido para servir como introdução ao sistema (e, por que não, ao hobby) que contém: 1) todas as regras do livro-base (capa mole); 2) aventuras; 3) personagens pré-feitos; 4) miniaturas de papel com suporte; 5) mapa do mundo (em papel); 6) mapa de batalha para usar com as miniaturas (em papel); 7) baralho de iniciativa e itens; 8) dados; e 9) uma caixa de papelão de alta qualidade para armazenar todos os itens. Olhando essa lista impressionante, seria razoável supor um valor absurdo por esse produto... mas não. Hoje, a caixa básica pode ser importada por 420 reais comprando na Amazon, mas esse valor já foi ainda menor, atingindo 230 reais em outros momentos. Como disse, esse produto foi pensado para introduzir futuros jogadores à DB.
Quando soube do FC de DB, fiquei animadíssimo, pois já desejava essa caixa básica há bastante tempo, mas, infelizmente, a alegria do brasileiro dura pouco. Em seu financiamento coletivo, a Tria Editora transformou a caixa básica, produto que, reforço, deveria ser a porta de entrada para o sistema, em um "item de colecionador". Esse desvirtuamento do produto é reforçado pelo fato de, até o momento, não termos sequer o baralho de itens traduzido ou as miniaturas de papel ofertadas no FC. Em suma, a caixa básica não existe, mas sim uma caixa para colecionadores guardarem seus livros em capa dura, ainda que a promessa da caixa tenha sido feita durante a pré-campanha. Caso você queira chegar o mais perto possível da caixa básica, você precisa gastar 690 reais e, ainda assim, não terá o baralho de itens nem as minituturas... mas, por outro lado, seus livros serão de capa dura e seu mapa de tecido!
(Suspiro) Eis que a gourmetização atinge o mercado dos RPGs. Não me entenda errado, eu não estou dizendo que esse financiamento não vale a pena, porque ainda acho que vale super a pena. Inclusive, eu vou participar desse FC, mas meu ponto aqui é outro. Por que não ofertar um produto que serviria como porta de entrada ao sistema e que é tido como "O produto" de DB, que, de quebra, é ofertado em um preço compatível para alguém que não está 100% inserido no hobby? Para discutir essa questão, precisamos falar sobre o modelo de FC.
Financiamentos Coletivos e seus Problemas
Eu já venho me posicionando como um opositor ao FC como a única forma de publicação editorial no Brasil faz algum tempo e, hoje, tenho a desculpa ideal para trazer esse ponto no blog. No FC de livros de RPG, como o próprio nome sugere, os investidores financiam um projeto ainda não firmado, no sentido de que a forma de publicação ainda não foi definida. As editoras mais sérias, como a Tria, já possuem a tradução do material, mas as impressões serão financiadas através do FC, enquanto as editoras menos sérias sequer precisam levantar algo do zero, possuindo apenas os direitos de publicação. Pondo dessa forma nem parece algo tão ruim, mas eu te explico o porquê da minha aversão.
O modelo de FC é excelente para as editoras por dois motivos principais. O primeiro, e que elas mesmas assumem, é que, por configurar uma ferramenta eficiente de aquisição de capital, ele permite que editoras pequenas lancem produtos interessantes uma vez que só precisam arcar com, no mínimo, os custos de licenciamento. O segundo, e não comentado diretamente, é que o FC é uma ferramenta importante para determinar a demanda reprimida pelo produto em financiamento e, assim, evitar o potencial prejuízo de produzir algo que não está sendo imediatamente desejado.
Da perspectiva do consumidor, entretanto, o FC pode ser significativamente ruim. O primeiro é que não se trata de uma pré-venda, de forma que o produto final sequer está garantido no momento da compra. Esse é um risco significativo principalmente para as editoras pequenas, que podem não possuir a estrutura organizacional necessária para atender à demanda de determinado título. Essa editora pequena perde dinheiro com fornecedor que não conhece, perde produto no estoque, perde prazos entre consumidores, etc. A consequência disso é o atraso e, no pior dos casos, calote. Tivemos diversos exemplos tanto de atrasos quanto de calotes na história recente de FCs, mas destaco Chamado de Cthulhu, em que o prazo final foi atrasado em mais de 2 anos, e Forbidden Lands, em que alguns produtos nunca foram sequer entregues, para não entrar nos casos mais perturbadores em que a editora simplesmente fugiu com o dinheiro sem entregar nada.
Esse último caso, inclusive, aponta a direção para outro incentivo dessas editoras pequenas. Caso um FC tenha sido um sucesso absoluto, mas suas ineficiências de produção tenham sido igualmente enormes, pode ocorrer que o dinheiro acabe antes da entrega. O que fazer nesse caso? Ora, uma solução é, contraintuitivamente, lançar outro FC. Seguindo essa estratégia, a editora arrecadará mais dinheiro para finalizar o projeto antigo, algum dinheiro para começar o futuro e, tudo dando certo, usará o dinheiro do estoque sobressalente do primeiro FC para terminar de pagar o segundo FC. Tudo isso enquanto aumenta a presença da marca do mercado, excelente, não? Caso tudo dê certo, talvez, mas caso não, a editora precisará de um terceiro FC para financiar o segundo FC, que não se pagou. Nesse caso, a editora começa a se fundamentar em um esquema de pirâmide, que não vou entrar em detalhes aqui, mas que é unanimemente tido como insustentável.
Outro motivo pelo qual o FC pode ser ruim da perspectiva do consumidor é a exploração da curva de demanda. Repare que, até agora, só comentei sobre problemas caso a editora seja pequena e ineficiente, como é comum para editoras pequenas. Entretanto, o FC também pode ser um problema para o consumidor caso a editora seja grande e extremamente eficiente. Nesse caso, a editora pode usar o FC para entender a estrutura de demanda pelo produto dela e, como uma monopolista, explorar essa curva de forma a maximizar lucro. No melhor dos casos, abandonam-se títulos tidos como fracassos editorais ainda que não tenha sido dado tempo o suficiente para que o público, de fato, descubra o sistema. No pior dos casos, a empresa entende que a demanda pelo produto é muito maior do que inicialmente acreditavam, e sobem os preços de forma descontínua durante os recorrentes late-pledges, que são um "FC parte 2", e/ou durante o período de venda normal do título.
O último problema, entretanto, diz respeito a algo que o mercado de gibis: a tal da gourmetização.
A Gourmetização no RPG Brasileiro
O fenômeno da gourmetização já atingiu todos os hobbies em algum grau, mas agora, por causa do modelo editorial fundamentado em FC, chegou com força aos livros de RPG. Note que em um modelo de negócios em que você precisa de engajamento da comunidade pra viabilizar o produto, uma das formas mais eficientes de chamar atenção para seu produto é o acabamento de luxo — em especial se o seu público tiver uma alta disposição a pagar, o que é o caso do RPGísta. Capas duras, edições de luxo, caixas de colecionador, mapas de tecido, dados personalizados... enfim, as opções são infinitas, mas um produto que poderia custar 80 reais vai passar a custar 150 e o fará chamando atenção!
Note que isso não é necessariamente ruim, na verdade, acho até bom, desde que venha como uma opção. Eu quero a edição de luxo, mas também quero a edição econômica (e não, o pdf não conta). Isso é fundamental tanto para a renovação de público quanto para a longevidade do sistema, porque é muito difícil justificar novas tiragens de um livro caro de produzir, mas isso não é verdade para livros baratos. E a consequência disso é que o acesso aos livros traduzidos torna-se objeto de coleção e, consequentemente, especulação, não de uso na mesa de jogo. Certamente, essa é parte importante na equação do porquê os sistemas traduzidos têm tanta dificuldade de criar comunidades aqui no Brasil, mas não na gringa.
Conclusão
Acho DB um baita jogo e vou invariavelmente participar do FC, potencialmente gastando uma quantidade pouco razoável de dinheiro, o que fará minha noiva querer arrancar meus preciosos e findos fios de cabelo. Isso posto, esse luxo que me darei não é para qualquer um. Eu gostaria de um mundo em que todos tivessem opções de consumo interessantes e, portanto, que incluíssem quem não vai gastar 800 reais em um FC para comprar um produto que, em toda probabilidade, nem conhece.
Caixas básicas são a melhor forma que eu conheço de ofertar esses produtos interessantes. Recentemente, tivemos o sucesso do financiamento da caixa básica de Mausritter e acho um formato maravilhoso para o produto e por um preço honesto. Para D&D, ainda temos a possibilidade de termos a caixa básica de The Keep on the Borderlands, que, digo por experiência própria, pois estou jogando atualmente, é um material incrível para a 5.5e.
| Caixa básica de Mausritter |
Infelizmente, com as editoras tendo um "taco editorial" cada vez menos incisivo, os incentivos apontam para outro lado. Me resta sonhar por um futuro melhor, mas não aposto minhas fichas nele. Espero, entretanto, estar errado.
Boas rolagens,
R.

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